30 outubro, 2010

Ele foi piloto do tráfico



Em Junho / 2006
 
Ex-piloto de vôo cooptado pelo crime organizado conta com detalhes como transportou drogas por seis anos para os maiores traficantes da América Latina, entre eles Fernandinho Beira-Mar.

Nos bons tempos, ele podia dar-se ao luxo de pegar seu avião para ir almoçar à beira da praia, no Rio de Janeiro, e voltar a São Paulo a tempo de buscar as crianças na escola. Hoje, vive na Penitenciária 2 de Tremembé, no Vale do Paraíba, vestindo um uniforme azul. O piloto Waldemar Ribeiro de Lima, 38 anos, condenado a 22 anos por tráfico internacional de drogas, revela como foi cooptado pelo crime organizado e a trajetória que o fez abandonar a atividade de instrutor de vôo para ganhar US$ 50 mil por viagem à Colômbia. Preso desde 2001, ele trabalhou para o tráfico por mais de seis anos. Na sala da enfermaria da penitenciária, Waldemar contou com exclusividade ao JT como foi sua vida de piloto do tráfico. 

Sedução do narcotráfico 

Em 1994, em Itápolis (SP), conheci pilotos que mexiam com contrabando e cheguei a pessoas que faziam o transporte de drogas. Até que surgiu o primeiro convite, por parte de um senhor que foi aliciado para trazer um carregamento, mas não teve coragem de ir, porque a pista era muito curta. Acertamos a viagem por US$ 4 mil, o dobro do meu salário como instrutor. Depois surgiu outra e mais outra. Quando dei por mim, já estava no mundo do tráfico. E com um diferencial: eu já tinha voado em jatos. Levei para lá toda a logística da aviação e do transporte aéreo. Fiz nome no crime organizado, fiquei muito conhecido, e fui tão procurado ao ponto de me dar ao luxo de recusar fretes. 

Ganho 

Nas primeiras quatro ou cinco viagens, ganhava US$ 4 mil. Depois vi que isso era nada. Aí um traficante quis comprar um avião e me contratou diretamente. Recomendei um Sêneca 2, um bimotor seguro, equipado com radar e com autonomia para quatro horas e meia de vôo. Passei a cobrar US$ 6 mil por viagem e depois, US$ 10 mil. Até que, em 1996, comprei meu primeiro avião – um Carioca – e passei a receber US$ 25 mil por viagem à Bolívia. No ano seguinte, quando comecei a operar na Colômbia e no Peru, não viajava por menos de US$ 50 mil, o preço do frete de até 500 quilos de cocaína. 

Firmas 

Trabalhei para muitas “firmas”. Quando você trabalha com avião próprio, aparecem muitos fretes. É comum os grandes narcotraficantes terem aviões, mas eles preferem pagar o frete porque não precisam se preocupar com local para guardar a aeronave, com sua manutenção e com o risco de perdê-la numa operação. O custo de uma viagem para a Colômbia, em que se gasta 30 horas de vôo, é de cerca de R$ 20 mil. Você cobra US$ 50 mil (cerca de R$ 100 mil) por frete e lucra R$ 80 mil. Não é muito, se você avaliar todos os riscos. 

Beira-Mar? 

Como fiquei muito conhecido, recebi convite para operar com uma organização do Rio de Janeiro. Prefiro não dizer os nomes dos patrões. Fui contratado para montar uma base operacional numa cidade do interior de Goiás. Lá, montei uma escola de instrução de vôo. E a organização comprou três aviões e pagou a construção de hangares. 

Máfia colombiana 

Em meados de 97, conheci um colombiano em São Paulo. Ele era genro de um grande “patrão” (produtor e exportador de cocaína) e me convidou para ir para a Colômbia. Logo depois, meu avião foi apreendido em Manaus. Não tinha droga, mas estava adulterado para o narcotráfico e foi interditado. Como não podia ficar sem operar, o patrão me mandou US$ 450 mil para eu comprar um turboélice – uma aeronave com logística avançada e que me permitiria fazer todo o percurso. 

Rotas 

Em geral, eu decolava de uma cidade do Interior de São Paulo. Quando o destino é a Colômbia, temos dois pontos intermediários: qualquer propriedade rural no Acre ou em Rondônia. De lá vamos direto para uma pista na selva, em área alugada e protegida por guerrilheiros. O pouso na Colômbia é tranqüilo, sem nenhum risco. Não é como na Bolívia, que você toca o avião no solo e tem no máximo dois minutos para estar no ar novamente, nem desliga o motor. Na volta, a gente evita descarregar no mesmo ponto. Pode ser no Interior de São Paulo, Rio de Janeiro ou Goiás. 

Primeira queda 

No final de 97, um trabalho conjunto das Polícias Federais de Manaus e de São Paulo acabou apreendendo meu avião numa oficina em Sorocaba. Acabei preso junto com um colombiano e um peruano. Fomos recambiados para Manaus e fiquei preso lá por 8 meses e 15 dias. Assim que saí da cadeia, fiquei um tempo em Manaus, trabalhando no transporte de malotes do Banco do Brasil, até baixar a poeira. Em 99, voltei para São Paulo e para o tráfico. Em 2000, comprei outro avião e passei a fazer novos fretes. No final de 2000, troquei-o pelo Bonanza com 7 horas de autonomia de vôo. 

A prisão 

Trabalhei com o Bonanza até dia 30 março de 2001, quando fui preso. Naquele dia, descarreguei 207 quilos de cocaína num canavial na região de Catanduva (Interior)e voei para o Aeroporto de Mirassol. A Polícia Federal estava monitorando o motorista do caminhão que levaria a droga para São Paulo e o prendeu num pedágio. Depois me prenderam dentro de um táxi, quando eu seguia de Mirassol para São José do Rio Preto. 

Operação suicida 

Conheço outros pilotos que, assim como eu, foram aliciados pelo narcotráfico. Seis ou sete morreram, porque é um transporte totalmente fora do padrão, é uma operação praticamente camicase (suicida), onde quem não é realmente competente morre. Caem muitas aeronaves. Não ganha alarde porque, quando cai, o avião é queimado. Se der para resgatar o corpo do piloto e trazer para dizer que foi um outro acidente no Brasil, isso é feito. Se não, fica por lá. As operações para o crime organizado são assim: altamente desgastantes porque você vai e não sabe se volta. 

Lucros e perdas 

Ganha-se muito no narcotráfico. Sempre tive boa moradia, bons carros, aviões. Saía de São Paulo, com o avião, para almoçar no Rio de Janeiro, passear um pouco, e voltar a tempo de pegar minha filha na escola. Só que é um dinheiro caro, que não compra de volta o que eu dei em troca. Perdi minha paz de espiríto, meus amigos de infância – porque tive de me fechar para todos eles. Porque passam a ter curiosidade sobre o que você faz, para quem você trabalha. Eles te vêem morando em mansão, andando de Mercedes, tendo avião próprio... Como é que você explica? Não gosto muito de falar dessa parte material porque pode servir de incentivo para quem está fora. Não compensa. Isso tudo não é motivo de orgulho nem de glória, mas de arrependimento. Pelo custo de tudo isso na minha vida pessoal. 

Pérolas aos porcos 

Eu sempre fui uma pessoa fria, determinada. Tudo o que faço, procuro fazer bem-feito. E no tráfico, eu dei o melhor de mim. E é uma das queixas que eu tenho. Atirei pérolas aos porcos. Na cadeia, tendo tempo para refletir, cheguei à conclusão de que se eu tive capacidade para fazer operações mirabolantes no tráfico, organizar transporte aéreo e terrestre, também posso usar essa capacidade para o bem, para algo mais bonito, mais digno. Coisa que eu possa mostrar para todo o mundo. Não ter de ficar escondendo como eu tive de fazer a vida inteira. 

Vida limpa 

Antes de ser preso, já tinha começado a pesar o fato de estar isolado dos colegas da aviação. Passei a me sentir um traidor dos colegas que trabalham na Varig, na TAM, em táxis aéreos, porque eu podia estar entre eles. Eu estava me sentindo um pirata do ar. Só que estava tendo um padrão de vida muito bom e teria de regredir se saísse. Minha ex-mulher foi minha grande incentivadora a não deixar o tráfico porque ela se beneficiava dele. Precisava de um empurrãozinho para cair do lado certo, ela me empurrou pro outro lado. Quando fui preso, ela me visitou por um mês, até eu assinar uma procuração pra ela vender uma casa. Depois sumiu, não veio mais. Não vejo os meus filhos desde que fui preso.

Reportagem: Rita Magalhães
Fonte: Estadao.com.br

 

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